5.10.07

Profissão: Sinuca

Escolhi uma profissão difícil. Não tecnicamente difícil, pois acho que o adjetivo se presta mais às engenharias, medicinas e afins. Mas é um trabalho moralmente, eticamente difícil.

Escolhi ser uma comunicadora. E, como se já não me bastasse, escolhi a especialização em Publicidade e Propaganda.

Lembro-me do meu primeiro dia de aula. 2003. O professor de "Oficina de Leitura e Escrita" estava fazendo aquelas dinâmicas horríveis em que cada um tinha que dizer de que escola veio e o que achava da publicidade.

Quando chegou minha vez, eu percebi que teria dificuldades com aquela coisa toda. Primeiro porque a única que havia vindo de ensino técnico de escola pública. Estudei o ensino fundamental todo em escola particular, mas o médio foi em escola pública, convivi com os dois lados. Segundo porque eu respondi que não gostava disso que a publicidade fazia de manipular as vontades e os desejos das pessoas. Achava errado.

A turma inteira riu de mim. Ouvi alguém dizer: "Tá no curso errado, minha filha". Naquele dia eu fui para casa pensando se aquilo era verdade. Não era possível que a academia formasse pessoas para enganar as outras. A Universidade era uma coisa boa, e, eu acreditava que a publicidade, coisa que me fascinava desde sempre, não era assim tão má, e que as pessoas não eram assim tão bobas.

Hoje, fazendo essa retrospectiva, percebo que algumas profissões estão mais propensas a canalhice e a corrupção que outras. Isso porque naquelas que lidam diretamente com dinheiro e/ou poder é que encontramos os maiores filhos da puta. Apesar de que seja possível levar vantagem em qualquer âmbito que se esteja, é menos provável que um professor, ou um biólogo sejam corrompidos do que um advogado ou um publicitário.

Inclusive, advogados e publicitários costuman ser confundidos com crias do capeta o tempo inteiro.

Descobri que não, as pessoas não são massa de manobra como muitos quer que acreditemos. E não, a publicidade não é a responsável pela manipulação nem pela criação dos desejos das pessoas. Vou falar mais sobre isso depois. As pessoas já nascem com seus desejos prontos. Porém, existem formas e formas de lidar com isso na propaganda, por exemplo.

A publicidade vive na sinuca, entre a ética e o capital. Muitos se rendem ao segundo, mas muitos resistem. Assim como em todas as áreas. Isso é política. E não achem que é fácil.

Tentando esclarecer: suponhamos que eu tivesse uma agência de publicidade - coisa que não gostaria de ter. Daí que minha agência tem como valores os meus próprios valores. Imaginemos que minha agência atenda a conta do Greenpeace. Meus valores estão afinados com os valores do Greenpeace. Minha agência não cobra pelos serviços prestados ao Greenpeace, repassando a eles somento o preço dos custos de execução dos trabalhos. Agora imaginemos que eu receba a proposta de atender a uma outra conta... da Petrobrás, por exemplo. Essa conta me promente muuuuita grana, daquelas absurdas mesmo, que fazem a gente pensar duas vezes antes de decidirmos ser éticos.

Não sei se fica clara a sinuca nesse caso. Como ser uma pessoa ética quando o dinheiro pode falar mais alto? Como resistir? É uma coisa que me perturba muito, e sempre perturbou. Como ajudar o Greenpeace, que luta pelos valores que eu também defendo e ao mesmo tempo aceitar a grana de uma empresa que polui desastrosamente o meio ambiente? Não posso ser hipócrita a ponto de dizer que seria fácil recusar a proposta da Petrobrás, porque não seria. Talvez eu até recusasse, já que penso que minha integridade vale muito.

O que me desespera é que se eu recusar a conta, com certeza outra agência irá aceitar como um presente dos céus. E fará toda a publicidade da Petrobrás, não mentindo - porque isso é uma coisa que publicitário não faz, e nem teria como , mas omitindo tudo de ruim que uma empresa desse porte faz para conseguir tudo de bom que ela consegue.

Será que tem que ser sempre assim? Os fins sempre irão justificar os meios?

A esquerda política quer tomar o poder de voz da direita para que então ela seja a voz dominante? Mas isso não seria apenas trocar seis por meia dúzia? Não, não acho que o poder tenha que ficar na mão de ninguém, nem da direita nem da esquerda, mas que fique na mão de todo mundo. Que todo mundo possa falar e que todo mundo possa ouvir. Por isso adoro a internet, que é o mais próximo que dá pra chegar nisso.

Será que somos mesmo nossos próprios lobos (logos)? Será que, na verdade, somos legais, mas que a sociedade nos corrompe? Será que vivemos todos através de contratos sociais e que nunca poderemos ser puramente legais uns com os outros?

O Douglas Adams diz que o último cara que tentou dizer que seria se legal se as pessoas parassem de implicar e que apenas fossem legais umas com as outras, só pra variar, acabou pregado num pedaço de madeira.

E isso não foi legal.

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